domingo, 13 de setembro de 2015

O TEMPO E AS LEMBRANÇAS



O tempo vai passar.
Eu prefiro que ele passe!
E que se vá!
Dele eu quero o cheiro do mar, o perfume das flores,
O abraço das crianças,
 O amor... Ah!  O amor...

E que o tempo passe!
Dele eu quero o som da gargalhada sem nenhum  escárnio,
O esboçar das primeiras letras na areia, nas paredes ou no papel,
Quero o esbarrão que nos faz pedir desculpas e após olhar outra vez,
 nos impulsione para o abraço.

O tempo vai passar. E que se vá!
Dele eu quero o embevecimento das noites enluaradas,
O arrendar de um sorriso depois da nostalgia,
Eu quero o rosado nas bochechas do céu,
 envergonhado no finalzinho da tarde.

E que o tempo se vá...  Mas deixe pra mim
A orquestra harmoniosa dos periquitos, à tardinha, nos galhos mais altos
Do pé de manga mel-rosa.
A correria para jogar areia nas castanhas de caju ainda em chamas!
As brincadeiras de adivinhar letras de músicas,
A canção soprada num "pife" feito de taboca.
Na minha pele, as marcas de minha própria autoria, enquanto
Descobria o mundo.
O amor... Ah! O amor...

E que o tempo se vá!
Dele eu quero a perda de um beijo roubado,
Lágrimas incontidas somente de felicidade pela conquista,
A dúvida: em que mão ficou o anel que andou, andou
 nas brincadeiras de roda?
Quero o saltitar dos meus pés descalços, de folhagem em folhagem,
Por causa da areia quente, rumo à casa da vovó.
O amor... Ah! o amor...

E que se vá o tempo.
Até prefiro que o tempo passe.
Dele eu quero a esperança  e a magia de um novo e belo alvorecer!


segunda-feira, 1 de junho de 2015

CASAMENTO NA ROÇA


Certo dia, Maria Escurregadeira  apareceu chorando para sua mãe, Dona Maria das pedras Moiada, dizendo:
_ Mamãe, mamãe, me ajude!
_ O que foi minha fia?
_Eu to sofrendo do mal de amor.
E a mãe muito preocupada pergunta:
_ Por quem, minha fia?
E a filha, toda se derretendo, responde:
_ Por um rapaz bonito, alto, moreno, sensual...
A mãe desesperada ao ver a filha toda afogueada, diz:
_ Vixe Maria, vai ter de se casar. E seu pai tem de saber. Danou-se! E ela sai gritando:
_ Ô Chico Pança, meu véio!  E o marido responde:
_ Que é muié? Que diacho acunteceu nessa casa?  E a  esposa responde:
_ Ô marido, nossa fia vai ter de casar. Ela me disse que ta com a tal dor de amor!
O pai, muito bravo, quer saber que história é essa.
_ Maria, Ô Maria Escurregadeira, quem é esse lazarento das costa oca?  E a Maria responde toda , toda!
_ Ô meu pai, é o João Chimbungo!  E o pai sai muito, mas muito zangado mesmo!
_ Eita que é hoje que eu capo um cabra ruim!!!
     A mãe e a filha se desesperam.
_ Ô minha nossa senhora da desesperança, proteja o meu Chico Pança! Diz a mãe.
_ Ô minha nossa senhora do pé no mundo,  proteja o meu João Chimbungo!
     O pai foi na delegacia e deu parte do infeliz.
     Então, o delegado e um policial foram atrás de João Chimbungo para esclarecer o acontecido.
 _ E aí, seu cabra, fez mal a fia alheia, né?  Você vai é pro cilindro! Disse o delegado.
     João Chimbungo respondeu tentando mostrar a cara de um inocente:
_ Ô seu degolado, num prende eu não! Naquele dia eu tomei uns gorote, eu num lembro de nada não! Eu sou inocente!
_ Ah,  é?  Pois agora vai ter de casar com Maria Escurregadeira. Disse o delegado.
_ Vixe maria¸eu num caso não. Falou o João.
_ Casa! Disse o delegado.
_ Num caso não!
_ Casa
_ Num casa não? O pai da Maria Escurregadeira perguntou-lhe com um trabuco na mão.
E o João Chimbungo disse, quase chorando:
_ Caso!
     Marcaram o dia do casório.
     No dia do casamento, estavam todos. Aliás, quase todos. Faltava só o João Chimbungo.
     Maria Escurregadeira estava toda emocionada...” Linda!!!”  Sua mãe, Maria das Pedras  Moiada, estava toda chic, mais brilhosa que o sol!  Seu Chico Pança, todo arrumado parecia que ia fazer exame de fezes, esperava meio sem paciência.
_ E cadê aquele fi de uma mãe? Aquele carcará sanguinolento de uma figa?
     Repentinamente, João Chimbungo entra de igreja adentro só as tiras de bêbado e carregado por um policial e o delegado,  perguntou:
_ È aqui, que é aqui?
     E todos responderam:
_ É aqui mesmo!
     E com um passo à frente e dois pra trás, João Chimbungo chegou ao altar. O padre comentou:
_ Queridos irmãos, agora vamos começar a cerimônia do casamento.
     João chimbungo respondeu: Eita padre, vá ter família grande assim La na caixa prego!
_ Mais respeito seu João! Podemos começar esse casamento? Disse o padre.
Seu Chico Pança irrita-se e quer pegar João. O delegado e o policial acalmam a todos e o delegado diz:
_  É bom começar logo com isso.
João resmunga:
_ É só porque não é você no meu lugar Seu degolado! E o delegado diz: _ É delegado, delegado!
_ Tudo bem, seu degolado. Vamos logo seu padre, eu quero é cair no forró a noite toda!
O padre começa a cerimônia.
_ É de livre vontade que Maria Escurregadeira e João Chimbungo vieram se casar?
Maria Escurregadeira responde:
_  É seu padre, eu e o João caímos na esparrela e por isso tamo aqui. Mas é de amor!
João Chimbungo diz:
_ É,  seu Padre, eu tomei uns gorote e por isso o degolado, esse bem aí, me obrigou a ta aqui hoje.
Então o padre diz:
_ Maria Escurregadeira, você  aceita o João como seu esposo, na feiúra, na magreza, na preguiça e na bebedeira até que a vida os separe?
_ aceito seu padre.
_ João Chimbungo, você aceita Maria Escurregadeira como sua esposa na feiúra, na doença, na magreza e na maldizença em todos os dias de sua bebedeira?
_ Eu, eu...
Nessa hora, Chico Pança, o policial e o delegado, mostram o cassetetes para João, e ele que não é bobo, responde, quase chorando:
_ Aceito.
 O padre levanta as mãos para o céu e diz:
_ Finalmente. Eu os declaro, marido e mulher. Pode beijar!!!
D. Maria das Pedras Moiada e Seu Chico Pança convida a todos, dizendo:
_ E vamos embora meu povo, que agora vai ter forró nesse arraia. Vamos lá minha gente!
E todos respondem:

_ Vambora!!!

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A LAGARTIXA



Ui! Me assustei!
Olha só o que achei!
Achei uma lagartixa!
O que ela fazia aqui?
Será que estava xeretando?
Não. Eu acho que não.
A dona lagartixa
estava apenas cochilando.

Ui! Essa dona lagartixa
chega assim... de repente!
Desse jeito eu não relaxo,
dá uma chance pra gente.
Deixa de ser tão xarope
E não me assusta novamente!

Bichinho, aonde mora?
num ranchinho na chapada,
em um chalé muito chique,
na chaminé dessa casa?


Qual é teu lanche mais gostoso?
chá, churros, churrasco ou chouriço?
Baratas, moscas, besouros?
Está de deboche comigo?



Escondeu-se atrás do xale,
E embaixo do meu chapéu,
Cuidado com a chaleira
e com o bico do xexéu!

vira e mexe... eu te acho!
Acabei me acostumando
Deixa de tanto xaveco.
Já estou me apaixonando!                                                    

sábado, 6 de setembro de 2014

ENCONTREI-ME!





Fechei os olhos, e, aos poucos fui voltando para mim mesma.

Havia uma porta, mas estava trancada. Empurrei, bati.

Quis chamar-me. Temi.

Escutei barulhos... Muito barulho!

De repente, a porta ficou entreaberta e devagarzinho fui entrando.

Enxerguei-me como quem vê o tempo prestes a chover...

Fechado... Numa penumbra... Nublado!

Arregalei meus olhos para mim mesma, querendo conhecer-me.

Mas, a escuridão surgiu. Era noite, e, fiquei ali, quieta, e,

 demorei acender a minha luz. É sim, descobri que eu tinha uma luz própria,

e decidi deixá-la sempre acesa!

Diante dessa luz refletiu a minha face, mas os olhos

não queriam encontrar os meus olhos. E insisti.

Numa luta contra mim mesma consegui olhar nos olhos meus...

Vi alguns anos passados diante de mim,

Vi a dor, a fraqueza e a sorte,

Vi o amor e a morte! Aprendi!

Descobri que conseguia falar de morte por no máximo cinco minutos

O que já é muito, para alguém que prefere e ama a vida!

Olhando nos olhos de mim mesma deparei-me com os dissabores da

Solidão... Mas numa visão egoísta e sem nenhuma nobreza!

Então, mergulhei mais profundo neles e me vi.

Vi que nunca estive sozinha. E naquele momento

vislumbrei a mim mesma sendo acolhida nos braças de um ser infinitamente amoroso!

E ali, descansei...

Depois, mais forte e revigorada, continuei meu caminho em mim.

Encontrei rios de lágrimas,

Montanhas de sorrisos,

Encontrei orações perdidas pelo chão, e vi também,

Alguns anjos emprestarem-me suas asas!

Encontrei em mim alguns pedaços, não entendi. Quis emendá-los,

Mas, alguns se encaixavam e outros não!

Eram pedaços de mim. Pedaços de minha infância,

 Outros da minha adolescência, e tantos outros...

Juntei... Guardei todos na memória do meu eu!

Resolvi seguir em frente nessa busca.

Encontrei uma caixa enorme e firme; tentei abri-la,

Estava endurecida, rústica e meio fria! Senti medo!

Eu não permiti a mim abri-la. Mas, num descuido,

vi-me diante de um coração amargurado, triste, machucado e

decepcionado, recusando-se a amar de novo!

Não queria sofrer! Essa foi uma tarefa talvez, a mais difícil nessa caminhada.

Mas, dei a mim o direito de amar e ser amada novamente!

Confesso que muitas e muitas vezes, senti vergonha de mim e muitas outras,

Dava em mim uma vontade de castigar-me.

E foi assim que aprendi a duras penas a perdoar.

Pois, me amando perdoei a mim mesma.

Jamais esquecerei os momentos em que senti piedade de mim.

E, num esforço profundo, desatei a sorrir... E, diante de mim,

Não segurei e gargalhei... Então ali percebi a força em mim!

No mais intimo do meu ser, senti nojo de mim mesma!

Quis voltar, sair dali, fugir? Mas a curiosidade em conhecer a mim

Fez-me ficar e ver o quão absurdo era o egoismo, o vício, a soberba e

O comodismo dentro de mim!

E esse foi o lugar onde houve mais resistência à mudança

De que eu precisava e que preciso para ser eu mesma!

E é bem aqui que essa busca é contínua...

E tem que ser agora... Não quero perder-me!

Vislumbrei a grande mulher em mim!

Mãe, filha, tia, professora...

Descobri que já não sou só guerreira, mas solícita.

Senti o medo de ser escrava de mim mesma e por isso,

Cobrei a mim a decência dos atos e a clareza dos fatos e

Criei princípios fundamentados nessa busca de mim mesma.

Abomino a corrupção e o falsário!

Luto somente pela liberdade!

E a liberdade pra mim é a autenticidade do eu!

Estou conhecendo a mim mesma!

Buscando-me a cada dia. Voltei e abri meus olhos!

Sou frágil e forte                             

Sou pedra e água

Sou ferro e fogo.

Sou única!

 Voltei e abri meus olhos!                                               

                                                    Irane dos Anjos.


                                                    Piripiri, 06/09/14.     Às 14:52 hs.





domingo, 27 de julho de 2014

O MAR, O SOL E A LUA ( Poesia em cordel)




O MAR, O SOL E A LUA

Lá no inicio dos tempos

O sol, o mar e a lua,

Ainda não se conheciam

Vivia cada um, na sua

E o universo meio sem graça,

Sem nada, sem carapaça,

Sem forma, sem escultura.

 
A lua, branca, gélida e tímida,

Não tinha como se acender

E na imensa escuridão

Ela tinha que viver

E, nem sequer imaginava

O que lhe ia acontecer.

 
O mar, tão grande... coitado!

Andava triste a penar

Vivia a vida encolhido

Com medo de se espalhar

Vejam só que ironia

Pois na sua linda harmonia

A terra vinha banhar.

 
O sol, muito esquentadinho.

Inquieto e esquisito

Num momento ele pensou

Ter visto algo bonito

Curioso que só ele.

Saiu do esconderijo.

Grande foi sua emoção

Diante do infinito!

 
Deus, na sua onipotência,

Decidiu articular

O encontro do mar, do sol e da lua

Imaginem! O sol, a lua e o mar...

Os três... Disse a Trindade Santa:

_ Quero ver no que vai dar!

 
O sol apaixonou-se pela lua,

A lua apaixonou-se pelo mar

E Deus, ajeitava daqui e dali...

E Deus ajeitava aqui e acolá...

Então o sol convidou a lua

Para com ele, morar.

 
A lua disse ao sol:

_ Sinto muito, meu amigo

Pois você não percebeu

O que acontece comigo?

Quando estou perto de você

Sinto-me adormecer

Sinto algo muito esquisito!

 
O sol muito decidido

Quis achar a solução

Mas não havia nenhuma

Que lhe acalmasse o coração

O mar, assistindo a cena,

Do sol ele sentiu pena

E resolveu a questão.

 
O mar comoveu-se tanto

Que desatou a chorar

Com a triste história de amor

E começou a se espalhar

Foi se espalhando... Se esparzindo...

E o sol e a lua subindo

Para não se afogar

Até que encontraram o céu

Que hoje é seu lugar.

 
Depois que tudo passou,

Que o universo parou

Tudo era calmaria!

Foi aí que a lua viu

A beleza que surgiu

Não acreditou no que via!

 
A lua, ainda assustada;

Sem entender quase nada

Quis se desabar em prantos

Mas um espetáculo maior

Re, mi, fá, sol, lá, si, dó.

Veio trazendo remanso.

 
Finda o primeiro dia

O que nos dá nostalgia.

O sol quieto num canto

Chamou a atenção da lua

Sua forma, limpa, nua;

O seu calor, seu encanto!

Seus raios, a sua luz,

Refletidos no mar azuis;

As ondas do mar rolando!
 

Chega a primeira noite.

E a lua sozinha ao léu,

O sol sentindo saudades,

Jogando sua luz no céu

Fez a lua então, brilhar,

E tornou-se seu Corifeu!


 
O mar segura suas ondas

Nas manhãs ensolaradas

Para contemplar o sol

Nas suas águas salgadas

É Deus, mais uma vez,

Na sua grande honradez

Sublimando a alvorada
 


E nas noites enluaradas

A lua vem beijar o mar

Como em agradecimento

Pois ela desce do céu

Vem arrastando um véu

É tão lindo esse momento!

 
 
A lua e o sol estavam

À solidão condenados

Pois enquanto um dormia

O outro estava acordado

Então, Deus deu um jeitinho;

Sem eles não tem destino

Para os enamorados! 

 

Em Piripiri: 26/07/14