O tempo vai passar.
Eu prefiro que ele passe!
E que se vá!
Dele eu quero o cheiro do mar, o perfume das flores,
O abraço das crianças,
O amor... Ah! O amor...
E que o tempo passe!
Dele eu quero o som da gargalhada sem nenhum escárnio,
O esboçar das primeiras letras na areia, nas paredes
ou no papel,
Quero o esbarrão que nos faz pedir desculpas e após olhar
outra vez,
nos impulsione
para o abraço.
O tempo vai passar. E que se vá!
Dele eu quero o embevecimento das noites enluaradas,
O arrendar de um sorriso depois da nostalgia,
Eu quero o rosado nas bochechas do céu,
envergonhado no
finalzinho da tarde.
E que o tempo se vá...
Mas deixe pra mim
A orquestra harmoniosa dos periquitos, à tardinha, nos
galhos mais altos
Do pé de manga mel-rosa.
A correria para jogar areia nas castanhas de caju
ainda em chamas!
As brincadeiras de adivinhar letras de músicas,
A canção soprada num "pife" feito de taboca.
Na minha pele, as marcas de minha própria
autoria, enquanto
Descobria o mundo.
O amor... Ah! O amor...
E que o tempo se vá!
Dele eu quero a perda de um beijo roubado,
Lágrimas incontidas somente de felicidade pela
conquista,
A dúvida: em que mão ficou o anel que andou, andou
nas
brincadeiras de roda?
Quero o saltitar dos meus pés descalços, de folhagem
em folhagem,
Por causa da areia quente, rumo à casa da vovó.
O amor... Ah! o amor...
E que se vá o tempo.
Até prefiro que o tempo passe.
Dele eu quero a esperança e a magia de um novo e belo alvorecer!
